sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

O SOLAR DA TIBURCIA

O Restaurante “Solar da Tiburcia”, situado na Calçada de Carriche n.º 111-C, no mesmo local onde tinha existido o restaurante típico “Nova Sintra”, foi inaugurado no dia 18 de Junho de 1955 e encerrou no mesmo ano. 

Era uma casa de fados e guitarradas aberta até de madrugada.

Neste restaurante cantava a fadista Áurea Ribeiro e o fadista Alfredo Duarte Júnior, filho do grande fadista Alfredo Marceneiro, como indica um anúncio publicado no Jornal Diário de Lisboa.


(1955), “Diário de Lisboa”, n.º 11686, Ano: 35, Sábado, 18 de Junho de 1955, Ed: 1.ª edição, Fundo: Documentos Ruella Ramos, Arquivo Fundação Mário Soares

O RESTAURANTE NOVA SINTRA

O Restaurante de Nova Sintra situado na Calçada de Carriche, na Quinta de Nova Cintra que lhe deu o nome, foi inaugurado a 4 de Setembro de 1948.

    Era um restaurante típico com uma ampla sala, uma esplanada muito arborizada e um parque privativo para automóveis, às portas de Lisboa, onde se cantava o fado todos os dias, até de madrugada.

A entrada para o parque privativo de automóveis e para a esplanada fazia-se pelo n.º 109-A da Calçada de Carriche e o salão do restaurante tinha os números de porta: 111-A, B e C.

Foi nesta época que na Calçada de Carriche se passou a reviver a tradição da boémia lisboeta, que no século XIX tinha  o costume de se concentrar nos retiros das hortas a comer a beber, a ouvir o fado à espera dos touros, que vinham de Frielas e atravessavam a cidade até à praça do Campo de Santana. Neste mesmo local tinha existido um “retiro das hortas” com o nome de Nova Cintra, que data de 1856.

     Alfredo Marceneiro foi o fadista convidado para a inauguração, passando a cantar todas as noites neste restaurante e a assumir a direção artística.

(1948), “Diário de Lisboa”, n.º 9257, Ano: 28, Sábado, 4 de Setembro de 1948, Ed: 1.ª edição, Fundo: DRR - Documentos Ruella Ramos, Arquivo Fundação Mário Soares

Este restaurante passou a ser um ponto de encontro dos apreciadores do fado antigo.

Por aqui passaram as mais admiradas figuras do fado como Alfredo Marceneiro, Fernando Farinha, Hermínia Silva, Manuel Fernandes, Carlos Ramos, Carlos Duarte (o pirolito da Ericeira), Adelina Ramos, Maria Carmen, Ilda Silva, Maria da Saudade, Fernanda Baptista cantora e actriz de teatro e muitos outros.
Alfredo Marceneiro manteve-se à frente dos fadistas do Nova Sintra até à abertura do seu restaurante “O Solar do Marceneiro”.

       Então, o grande animador deste castiço restaurante-esplanada passou a ser Fernando Farinha, que ficou conhecido como o “Miúdo da Bica”.

(1948), “Diário de Lisboa”, n.º 9297, Ano: 28, Sexta-feira, 15 de Outubro de 1948Fundo: Documentos Ruella Ramos, Arquivo da Fundação Mário Soares
 
Foi neste castiço restaurante-esplanada que o fadista Fernando Farinha festejou o seu 20.º aniversário natalício, em 20 de Dezembro de 1948, num jantar que foi presidido pela conhecida fadista Hermínia Silva, com a colaboração de diversos artistas do teatro, do fado e da rádio e com a direção artística do poeta popular João Linhares Barbosa.
 
No dia 20 de Outubro de 1949, foi organizada uma festa de homenagem à fadista Hermínia Silva com a inauguração da sala “Hermínia Silva”. Participaram no programa desta festa, além desta popular atriz e cantadeira “Hermínia Silva”, outras grandes figuras do fado: Lucília do Carmo, que tinha a sua casa de fado “A Adega da Lucília do Carmo”, na rua da Barroca, no Bairro Alto, Maria do Carmo que era antiga proprietária da casa de fado “Ferro de Engomar”, Júlio Proença, Áurea Ribeiro e o poeta popular Linhares Barbosa.

      No dia 26 de dezembro de 1949 realizou-se neste famoso restaurante uma ceia e um espectáculo de homenagem ao actor Vasco Santana, com a colaboração de artistas de teatro, fado e da rádio e um grupo de fadistas.

A proprietário deste restaurante era Álvaro Anselmo de Oliveira, que tinha a alcunha de “Álvaro do Cão”.
 
Na direção artística deste restaurante estiveram diversos fadistas conceituados: Alfredo Marceneiro, Fernando Farinha e Áurea Ribeiro.

      Aos domingos a ementa era especial: caldo verde à transmontana e à alentejana, mariscos de todas as qualidades, gradum de pescada e cabrito à Bairrada. Mas a especialidade da casa era o famoso “Leitão assado à Nova Sintra”.

       Apesar de ter tido grande sucesso, este restaurante acabou por encerrar em 1952 e no mesmo lugar abriu um outro restaurante típico.

O FADO FORA DE PORTAS EM CARRICHE

No século XIX os Lisboetas tinham por hábito sair da cidade e ir fora de portas às hortas, às esperas de touros e aos retiros onde havia fado e guitarradas, pela noite fora.

Esta tradição perdeu-se com o passar do tempo, mas foi retomada no final dos anos quarenta do século XX, quando começaram a surgir vários retiros do fado nas portas de Carriche. 

Primeiro surgiu o Nova Sintra, depois o Solar de Alfredo Marceneiro, o Restaurante típico O Patrício, o Solar Tradição, Os Lobos-do-Mar, o Roseiral e outros menos conhecidos.

Hoje passados cerca de sessenta e cinco anos, já são poucos os que se lembram destas casas de fado e ainda menos os que sabem onde ficavam.

A paisagem mudou muito. Os edifícios degradaram-se com o passar do tempo e acabaram por ser demolidos. A velha aldeola de Carriche, às portas da cidade de Lisboa, como zona de fronteira aduaneira, perdeu esta função de suporte logístico e foi desaparecendo com a construção de novas estradas.

Por isso, fiquei fascinada por Carriche e resolvi partir à descoberta das memórias das velhas casas de fado que por aqui existiram.




sexta-feira, 4 de dezembro de 2015

Vamos para Carriche, a Nova Cintra!

No séc. XIX havia ao fundo da calçada de Carriche a Quinta Nova Cintra, com um “retiro das hortas”, que aí se instalou por volta de 1856. Ali paravam os transportes que circulavam de Lisboa para norte, a caminho de Loures e Torres Vedras. 

A reconstituição da história e das memórias deste sítio, só é possível através da análise de pequenos trechos dispersos na literatura do séc. XIX e do início do séc. XX.

Pertenceu esta quinta a José Joaquim Leite Guimarães (1808-1870) natural da freguesia de São João Baptista de Pencêlo, Guimarães, que emigrou para o Brasil e por lá fez uma avultada fortuna. Quando regressou a Lisboa, em 1852, comprou esta quinta situada na Freguesia de S. João Baptista do Lumiar, nos arredores da cidade (extramuros). O nome desta quinta está na génese do título de Barão de Nova Cintra, com o qual o distinguiu o Rei D. Luís I, por Decreto de 8 de Abril de 1862, por importantes serviços prestados ao pais.

Todos os roteiros de viagem do séc. XIX recomendam a passagem pela Quinta de Nova Cintra, como um ponto importante para ser visitado pelos viajantes, que vêm a Lisboa.

O Guia Luso-Brasileiro do Viajante na Europa refere o seguinte: «Calçada de Carriche, eis aqui onde se vê a formosa Quinta, baptizada com o nome mimoso de Nova Cintra é uma casa de pasto, que passa por ser a melhor extramuros de Lisboa. É preciso examinar esta bela quinta para encarecer o seu justo apelido. Continuando o passeio passa-se por um tosco monumento que comemora o desacato de Odivelas, e o suplício atroz de um delinquente. Odivelas, lugar notável somente pelo convento de freiras e sua ótima marmelada.»

Em 1862, Vilhena Barbosa na sua obra Fragmentos de um Roteiro de Lisboa e Arrabaldes de Lisboa apresenta uma descrição do sítio «Regressando do Paço do Lumiar à Estrada Real, e prosseguindo nela, desce-se a Calçada de Carriches, que é um lugar de 24 fogos, e pouco mais de 90 moradores, compreendidos na Freguesia de S. João Baptista do Lumiar. No fundo da Calçada está uma hospedaria, que se ataviou com o pomposo título de Nova Cintra. Não quadra muito bem o título, quer ao sítio, quer ao estabelecimento, pois que o primeiro carece de beleza e de arte, e o segundo de mais atrativos e comodidades. Todavia, ambos têm tido alguns melhoramentos, e podem ter muitos outros, que virão com o tempo, visto que lhes não falta a concorrência de público. Pouco adiante da Nova Cintra, em sítio plano, há um largo onde a estrada se divide em dois ramais. O que segue direito conduz à Póvoa de Santo Adrião, Mealhada, Loures, e outras terras dos arrabaldes de Lisboa, e depois a Torres Vedras. O da esquerda leva o viajante ao lugar de Odivelas, e a várias outras aldeias.»

No Novo Guia do Viajante em Lisboa e seus Arredores, encontra-se esta referência: «Calçada de Carriche, encontra-se uma formosa quinta, batizada com o nome de Nova Cintra, e a melhor casa de pasto extramuros de Lisboa, ruas de bem copado arvoredo, solitários caramancheis, uma serra com um belo caminho, praticamente por entre canaviais, no alto dela um mirante para descansar daquela ascensão, água puríssima e sempre fresca rebentando em abundância, ao lado de óptimos frutos e flores variegadas – eis aí a Nova Cintra, que bem merece o seu atrevido nome. A mesa é bem servida em pequenas salas de uma habitação unida à quinta, ou em algum dos Kioskos, ou mesmo nas ruas de arvoredo se assim o quereis. Dirigindo-se deste lugar para Odivelas, encontra-se no caminho um tosco monumento e a sua história escrita e figurada em azulejo; é a memória de um desacato e roubo perpetrado no convento de Odivelas, e do suplício atroz do delinquente.»

No Roteiro do Viajante no Continente e nos Caminhos de Ferro de Portugal encontra‑se outra referência a esta quinta: «Terminamos com Nova Cintra, ponto obrigado para ser visitado por todos os viajantes, que vêm a Lisboa e que dificultosamente deixam de ir a Nova Cintra. Nada pode justificar este título; mas a moda concedeu-lho, e por isso não há remédio senão sujeitar-se a gente aos seus caprichos. A Nova Cintra é uma pequena quinta com agradáveis passeios e uma boa casa de pasto. Para nós só tem um merecimento, e é poder servir de exemplo, na escola da vida para provar o que é a constância no trabalho e na indústria, porque de um ordinário e pouco rendoso casal, conseguiu o actual proprietário fazer uma boa e valiosa propriedade e recebeu em recompensa das suas fadigas e lavores, deixar a adversidade de o perseguir, e ser hoje naquela localidade querido e festejado por uns, adulado e invejado por outros.»

Pinho Leal no livro Portugal Antigo e Moderno refere o seguinte: «Carriche ou Calçada de Carriche - aldeia da Estremadura, freguesia de São João Baptista do Lumiar, termo, distrito, comarca e 8 km ao NO de Lisboa, 24 fogos, 90 almas. Situada sobre a estrada real, que de Lisboa conduz a Loures, e próximo do Lumiar e também na estrada para Odivelas (que é a mesma do Lumiar). No fundo da Calçada de Carriche está uma hospedaria que pomposamente se intitulou de “Hotel Nova Cintra”. É por isso que muita gente vai chamando a este sítio Nova Cintra. Em Nova Cintra é a quarta estação do caminho de Ferro Larmanjat de Lisboa a Torres Vedras. Tem esta povoação tido bastantes melhoramentos, e, como é muito concorrida das famílias de Lisboa (principalmente no verão), é bastante provável que ainda venha a merecer o nome de Nova Cintra.»

João Maria Baptista, na sua obra Choreographia moderna do reino de Portugal, afirma o seguinte: «Não devemos deixar em esquecimento nesta F. do Lumiar o belo sítio da calçada de Carriche, muito concorrido no verão, onde há o novo hotel da Esperança, e mais abaixo o da Nova Cintra pertencente ao Sr. Theotonio, que há poucos anos era muito concorrido, e que hoje é vivenda agradável e de frescas sombras em uma tarde de estio, por ficar na estreita garganta entre as duas pequenas serras d’Ameixoeira e Alcoutins.»

Esta estalagem e casa de pasto também está associada à história do fado e às esperas de touros, sendo referida por diversos autores que abordam estas temáticas. Sousa Bastos afirma que: «Durante muito tempo, aos sábados à tarde e à noite, foi uma grande diversão a espera dos touros. Era um pretexto (...). A melhor roda ficava no Campo Grande, no Cá e Lá, taberna afamada, ou na Calçada de Carriche, no popular Teotónio.» 8

As esperas de toiros e as touradas faziam parte dos costumes dos habitantes da cidade de Lisboa, praticamente desde o século XIV, e persistiram até aos finais do séc. XIX. Na literatura olisiponense encontramos relatos da agitação provocada pela passagem das manadas de touros a caminho das praças do Salitre e do Campo de Sant’Ana, e mais tarde do Campo Pequeno. Os touros provenientes das lezírias eram conduzidos por batedores e campinos desde Frielas, subindo a Calçada de Carriche e atravessando o Campo Grande, ou através da estrada de Sacavém. A condução do gado bravo para o Campo de Santana tinha o seu início à terça-feira, quando os toiros levantavam das lezírias com destino a Frielas, onde descansavam até sexta-feira, à noite. No sábado pelas cinco horas da tarde, iniciava-se o percurso até ao Campo Pequeno, onde permaneciam, junto ao Palácio Galveias até à uma hora da madrugada. Ao longo deste percurso, desde Carriche até ao Arco do Cego, instalavam-se os retiros e as casas de pasto, locais de convívio e de patuscadas, nos quais se juntavam os aficionados, os boémios e os fadistas na noite anterior à chegada dos touros, sendo as mais preferidas a Nova Cintra, Patusca, José dos Santos, Quebra Bilhas, Colete Encarnado, António da Joana. 9

Tomaz de Mello num pequeno livro sobre As Esperas de Touros em Carriche faz uma descrição impressionante do ambiente que se vivia nesta quinta, nessa época: «Desde o meio-dia que principiavam a afluir os trens e os cavaleiros para Nova Cintra. Era um espectáculo atraente. Sob os caramanchões, tapados de hera e boungainville, mesas cobertas por alvíssimas toalhas, esperavam os convivas. Trajes policromos, destacando-se por entre a verdura, davam nota colorida ao recinto de Nova Cintra e, entre a alegria rumorosa da conversação e o tilintar dos vidros, vinham, como sons de harpa eólica trazidos pela vibração, as notas plangentes e cismadoras das banzas, gemendo fados para os lados da mina, vibrados à sombra dos valados que se vestiam de madressilva e rosas silvestres. (...) Pelas quatro da tarde corria tudo para o muro da propriedade! Era a hora em que se largava o gado das pastagens das Marnotas. Carros com seus fregueses preparavam-se para buscar o curro, outros seguiam até ao Senhor Roubado, fazendo horas para a passagem, indo depois no couce.» 10

Era assim que o universo da tauromaquia se associava ao ambiente cultural do fado, em locais de convívio onde se misturavam fidalgos, cavaleiros, camponeses, operários, prostitutas e fadistas. 

Segundo Pinto Bastos «Nas sucedâneas de 1846, já se guitarreava o fado, como sucedia na Horta das Tripas (…). E esta tradição do fado manteve‑se nas hortas das épocas posteriores: João da Bateira, António das Noras, em Arroios, Quintalinho da travessa do Pintor, Theotónio da Calçada de Carriche ou Nova Cintra (onde se ia em burricadas) a Joana do Colete Encanado, no lado oriental do Campo Grande (que passou depois para a azinhaga da Torre, no Lumiar).» 11


O proprietário do Hotel Nova Cintra foi também um benemérito, já que o seu nome aparece associado a uma obra de beneficência, o Asilo da Infância Desvalida e dos Pobres do Lumiar, criado no reinado de D. Pedro V, seu patrono. «Teve início numa comissão de beneficência fundada pelo antigo proprietário do Hotel Nova Cintra, na calçada de Carriche, Theotónio Victorino D´Assumpção. À custa do produto de bazares de caridade e de donativos diversos, começou desde 1857 a sustentar, vestir e educar 4 crianças do sexo feminino e a dar anualmente um bodo a 80 raparigas do Lumiar.» 12 

Ficamos a saber que Theotónio Victorino D'Assumpção, mais tarde, deixou o Hotel Nova Cintra e foi estabelecer-se no Campo Grande, através da literatura sobre a história do fado e das esperas de touros. Alberto Pimentel, na sua obra A triste canção do sul, fala-nos do fado de Carriche, descrevendo o sítio como «Pequena povoação da freguesia do Lumiar, arrabalde de Lisboa, Carriche é um sítio muito frequentado por ocasião das esperas de touros, posto já o fosse mais, quando ali havia, ao fundo da calçada, o Hotel de Nova Cintra, com uma bela horta para comezainas ao ar livre (…) Hoje o dono do Hotel veio estabelecer-se no Campo Grande. No sítio, apenas restam algumas tascas, que ainda assim fazem bom negócio em noitadas de touros, e que são habitualmente visitadas pelos saloios que ali passam.» 13 

Por volta de 1948, foi retomada a tradição das casas de pasto e das noites de fados e guitarradas na Calçada de Carriche e nesta quinta instalou-se o restaurante Nova Sintra. 

Alguns anos mais tarde, o mesmo edifício foi ocupado pelo restaurante O Pampilho, bastante conhecido no ambiente fadista. 


Montagem a partir de Fotografias de Artur Goulart, 1965, Arquivo Municipal de Lisboa


O edifício foi demolido em 1970, para alargamento da Calçada de Carriche.

Hoje, a vegetação cobre toda a encosta, e o tempo apagou os vestígios desta quinta. 

Só um olhar mais atento descobre uma passagem ...



Fotografia de Miguel Henriques, 2015




1 SAMAGAIO, Estevão (S.D.) José Joaquim Leite Guimarães Barão de Nova Sintra, Santa Casa da Misericórdia do Porto.
2 LEMOS, Ignácio Manuel, (1859) Guia Luso-Brasileiro do Viajante na Europa, Tipografia de António José Silva Teixeira, Porto, pág. 23.
3 BARBOSA, Vilhena (1862), Fragmentos de um Roteiro de Lisboa (Inédito) Arrabaldes de Lisboa, in Archivo Pittoresco, Semanário Illustrado, Editores e Proprietários Castro Irmão & C.ª, Lisboa, Vol. VI, p. 326-328; 332-333.
4 BORDALO, Francisco Maria (1863) Novo Guia do Viajante em Lisboa e seus Arredores: Cintra, Colares, Mafra, Batalha, Setúbal, Santarém, etc. (segunda edição aumentada), Editor J. J. Bordalo, Lisboa, pág. 163-164.
5 ABREU, João António Peres, (1865) Roteiro do Viajante no Continente e nos Caminhos de Ferro de Portugal, Imprensa da Universidade, Coimbra, pág. 132.
6 PINHO LEAL, Augusto Soares de Azevedo Barbosa, (1874) Portugal Antigo e Moderno, Vol. II, ed. Livraria Editora de Mattos Moreira & Companhia, Lisboa, pág. 127-128.
7 BAPTISTA, João Maria (1876) Chorographia moderna do reino de Portugal, Volume 4, Typographia da Academia Real das Sciencias, Lisboa, pág. 740.
8 SOUSA BASTOS, António (1947) Lisboa Velha: sessenta anos de recordações 1850 – 1910, pág. 106. 
9 CARMO, José Pedro, (1926) Touros: Arte Portuguesa, Livraria Popular de Francisco Franco; ABREU, Carlos, (1908) Esperas de Touros, Revista Serões n.º 37, Julho, pág. 3-18.
10 MELLO, Tomáz, (1874) A Espera de Touros em Carriche, Scenas Lisboa.
11 PINTO DE CARVALHO (Tinop) (1908) História do Fado, Empreza da História de Portugal, pág 28.
12 RIBEIRO, Victor (1904) A História da Beneficência Publica em Portugal, in O Instituto Revista Cientifica e Literária, Vol. 51, Imprensa da Universidade, Coimbra, pág. 3.
13 PIMENTEL, Alberto (1904) A triste canção do sul (subsídios para a história do fado, Livraria Central Gomes de Carvalho, editor, pág. 246-247.

quinta-feira, 3 de dezembro de 2015

CARRICHE

Carriche (Calçada de)

«Aldeia situada na estrada real, que de Lisboa conduz a Loures, pertencente à freguesia de S. João Baptista do Lumiar, e ao 2.º Bairro de Lisboa. 
 No fundo da calçada de Carriche houve uma hospedaria, que se intitulou Nova Cintra, e que por muitos anos se tornou moda em passeios na estação calmosa, sendo muito apreciada pelos recém-casados aí passarem a lua-de-mel, ou pelo menos o dia do casamento. Foi a 4.ª estação do antigo caminho-de-ferro Larmanjat, de Lisboa a Torres Vedras. Pouco adiante de Carriche há um largo onde a estrada se divide em dois ramais; o que segue direito, conduz à Povoa de Santo Adrião, e outras terras dos arredores de Lisboa, depois a Torres Vedras. O da esquerda vai para Odivelas, Caneças e outras povoações. A este largo se dá o nome do Senhor Roubado, que é o limite da cidade de Lisboa. O nome provém de uma capela que existe ali, com esta invocação, um padrão erigido em consequência do sacrilégio cometido em 1671, na igreja d’ Odivelas, do roubo de partículas sagradas, que o roubador veio enterrar neste local. O padrão foi assente a 5 de novembro de 1744, sendo depois construída com esmolas a actual capela.»

Esteves Pereira, João Manuel; Rodrigues, Guilherme (1906) Portugal; diccionario historico, chorographico, heraldico, biographico, bibliographico, numismatico e artístico, vol. II B-C,  Lisboa: J. Romano Torres. (pág. 794/795)

domingo, 15 de novembro de 2015

Retiro da Ti Jaquina

O Retiro da Ti Jaquina faz parte da memória das casas de pasto dos arredores saloios, onde se cantava o fado. A sua história está ligada à história da terra e dos seus habitantes. 
Era uma das casas de pasto mais antigas da Calçada de Carriche, situada à entrada de Olival Basto. Abriu portas no início do século XX e encerrou no final dos anos quarenta.

Como se pode ler no Boletim Olisipo dos “Amigos de Lisboa” (1942) «as casas do Campo Grande e da Calçada de Carriche, … que se prolongavam com as do Senhor Roubado e de Odivelas, terra dos esquecidos e da marmelada, hoje representados pela Tia Joaquina, locanda que se abre à direita do caminho de Loures, numa casa saloia…».

Eugénio do Espírito Santo, na sua obra “Ameixoeira um Núcleo Histórico” (1997), faz uma descrição das portas de Carriche e da entrada na cidade de Lisboa, com uma referência à Estalagem da Tia Joaquina: «As carroças e outros transportes que entravam pelas portas de Carriche a caminho da cidade, estacionavam ali perto, quando chegavam de madrugada, na “Ti Joaquina” e no “Café dos Bodes” e aguardavam pela abertura do portão para a ação fiscalizadora da mercadoria, que era feita pelos chamados Pica Chouriços, como os alcunhou o povo.

Vinham dos campos dos lados de Loures, Bucelas, Odivelas, Caneças e Montemor, com as suas carroças carregadas de produtos hortícolas em especial e tinham obrigatoriamente que parar pela “barreira” fiscalizadora e pagar o chamado imposto de consumo.»
 
Entre as muitas histórias que se contam sobre o Retiro da Tia Joaquina, há uma fantástica, que está associada aos primórdios da atividade da empresa de transportes Barraqueiro, (fundada em 1914) e que é relatada numa homenagem a Miguel Jerónimo: “O BARRAQUEIRO” (1892 1982), em http://www.mafraregional.pt





«A concorrência era grande e as coisas iam de mal a pior. Quando Miguel toma conta da empresa depara com os passageiros habituais a mudar para os colegas de Torres Vedras sem ele saber porquê, mas não tardou que descobrisse.

Os torreenses ofereciam uma cigarrilha a todos os passageiros logo que entravam nas camionetas. Mal punham o pé lá dentro, cigarrilha na mão. Naquele tempo as mulheres não fumavam, se não a coisa era diferente!... Assim, o chamariz era só para os homens que se consolavam a fumar e as passageiras viajavam desconsoladas.

O Miguel Barraqueiro via as camionetas de Torres passar para Lisboa apinhadas e as suas vazias, e já dizia mal à sua vida, quando lhe ocorre uma genial ideia para responder à concorrência satisfazendo os passageiros e ao mesmo tempo consolar as mulheres.

Se a concorrência oferecia cigarrilhas, ele respondeu com charutos (…) A tática do charuto resultou em cheio, com as camionetas do Barraqueiro abarrotadas de passageiros a fumar charuto, ficando as outras empresas a chuchar no dedo. E para consolar as passageiras que agora se viam mais discriminadas, o patrão Miguel ordena aos seus motoristas que parassem à entrada do Olival Basto, junto à estalagem da Ti Jaquina, ou um pouco mais adiante na tasca do Jorge, para ali oferecer às mulheres um cafezinho quente.»

Os habitantes mais velhos do Olival Basto ainda se lembram do Retiro da Tia Joaquina e dos seus proprietários, que eram a Tia Joaquina e o Ti Xico. Nesta casa de pasto, onde se cruzavam os saloios a caminho da cidade e os alfacinhas que procuravam fora de portas, os prazeres do campo, havia bons petiscos e fados e guitarradas até de madrugada.

Esta era a imagem do edifício, já bastante degradado, nos finais dos anos sessenta do século XX.

Para manter a tradição, em 1949, o “Retiro da Tia Joaquina” foi completamente remodelado e deu lugar a uma outra casa de fados, o “Restaurante Regional Patrício”. 

Um anúncio, publicado no jornal Diário de Lisboa de 31/12/1949, confirma a mudança.




Filomena Viegas




domingo, 8 de novembro de 2015

As Esperas de Touros na Calçada de Carriche


Nos finais do séc. XIX ainda havia esperas de touros na Calçada de Carriche. Sobre este tema divulgamos um texto de Vicente Vilar, publicado na Revista Panorama, em 1945.

«Os touros vinham por "seu pé" das lezírias, entre cabrestos e campinos. Chegavam na manhã de sábado ou de véspera de tourada real aos pastos das Marnotas.

Pingado o meio-dia na torre de Frielas, surgiam as primeiras tipóias com os primeiros aficionados - que eram sempre os mesmos.

Ao largo, o “Caraça”, boi de cavalo - quarenta arrobas de peso e quase quarenta corridas no pelo - suspendia a passada plácida e levantava a focinheira malhada, bebendo ares, muito sabido. Posto o que, dava uma “toutiçada” na “choca”, mais próxima, produzindo em toda a manada alarme e grande restolho de chocalhos.

Já tinham vindo mais tipóias. E mais gente - ginetes fidalgos, e picadores, e amadores montando pilecas de aluguer. E todos consideravam, mais ou menos entendidos, a estampa dos “bichos”, que prometiam façanhas para o dia seguinte.

Ao cabo da tarde, o Ezequiel de Carvalho, escarranchado na sua famosa “Andorinha”, sentenciando num conciliábulo de campinos, decretava a abalada. Encabrestavam-se os touros, entre correrias e gritarias. E primeiro a passo, depois a chouto, e depois a trote, ganhava-se o caminho - onde, à cabeça, entrava a cavalgada flamante e no coice, desconjuntando-se e levantando-se, nuvens de poeira, de pragas, de chicotadas e de clamores, o tropel dos trinta, quarenta ou mais carros de praça, que às proximidades tinham acorrido.

A Calçada de Carriche galgava-se a galope desenfreado, no imenso tumultuar daquela caravana, que parecia vir do inferno, endoidecida. Endoidecidos também pareciam os gaiatos, os saloios e saloias, os estúrdias e as loureiras, que se apinhavam nos muros e nas árvores -berrando com os bofes, batendo latas, botando ao passo dos touros, bombas de “lepes” e de vintém.

Que o espectáculo não tinha só esse primeiro acto - das Marnotas e da Calçada de Carriche. Pois, ao longo de resto da tarde e princípios da noite, prosseguia. A manada, em segundo repouso, nos baldios, onde se levantou, ao depois, a Praça do Campo Pequeno; as “hortas” do Campo Grande, atestadas de aficionados, em comezainas e descantes; e o fim - cada vez mais cavaleiros, e mais tipoias, e muito mais povo endiabrado. A largada final, delirante, na “ponta da unha”, para a Praça do Campo de Santana, ao começo da madrugada. Nem um tremor de terra, sacudindo as casas, nas outras noites calmas - que lindavam a velha Estrada do Rego, ou aquelas que, passadas as portas de Arroios, se erguiam nos quarteirões, de ali aos Paços da Rainha! Nem o Fim do Mundo - que lembrava, no seu trovejar de furacão, deixando, por detrás das vidraças, estarrecida e a persignar-se, a acordada gente boa e beata desses bairros de Lisboa!

Mas o "Arreda" ou o 'Paço de Arcos', batedores de monta, haviam sido os primeiros a chegar à praça, ganhando a bandeira. Haviam-se tresmalhado touros, que surgiram, de repente, no Rossio ou Perto do passeio Publico, pregando sustos - e, às vezes, marradas funestas - aos alfacinhas tresnoitados. No José do Borralho ou no José do Altinho, entre pratos de meia desfeita e canjirões de torrejano, a fina flor da Lisboa de fins de Oitocentos, passava a noite, divertidíssima e enternecidíssima, a comer, a beber, e a ouvir castiços fadunchos, cantados pela Chica dos Camarões e pelo Augusto Diguidão. E Tomás de Melo escrevia, com muita razão e verdade: "- Uma espera de touros é o melhor de todos os divertimentos, para o bom e pacífico povo de Lisboa".»


Quando o cortejo comandado pelo General Queirós e com Ezequiel Carvalho ou Ezequiel da Póvoa à cabeça, chegava ao Largo de Santa Bárbara, a Guarda Municipal a cavalo mandava parar e a multidão obedecia com muito esforço devido ao entusiasmo frenético que se apoderava dos aficionados”. 

António Manuel Moraes em Fado Marialva, 2007 

Imagens: Revista Serões, n.º 37,1908